José d’Encarnação teve acesso a livros graças à pioneira biblioteca itinerante do concelho de Cascais, iniciativa de Branquinho da Fonseca, que haveria de chegar a todo o território através da Fundação Gulbenkian, e acabou sendo professor catedrático em Coimbra.
Durante a instrução primária, José ia “de vez em quando” à biblioteca fixa, mas era “um bocadinho longe” para quem vivia entre o Lugar da Torre e o Lugar de Birre, na mesma casa onde recebeu a Lusa.
Tudo mudou com a possibilidade de a biblioteca ir ter consigo, um projeto-piloto gizado por António Branquinho da Fonseca quando era conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães e inaugurado em julho de 1953.
“No primeiro domingo de cada mês ia a uma zona, no segundo ia a outra, no terceiro ia a outra, cobria todo o concelho. Paravam no largo principal, apitavam e as pessoas [apareciam]”, recorda José, que tinha 9 anos quando a carrinha-biblioteca começou a circular em Cascais, no distrito de Lisboa.
Foi assim que leu “todos os livros do Sandokan” (famoso pirata criado pelo escritor italiano Emílio Salgari) e “todos os livros do Júlio Verne”.
Em sua casa não havia o hábito da leitura. A mãe era mulher-a-dias e o pai trabalhava nas pedreiras. Oriundos de São Brás de Alportel, migraram para Cascais no final da década de 1940, em resposta à necessidade de mão-de-obra para as grandes obras públicas ligadas à exposição universal de 1940, entre as quais a Marginal que iria até Lisboa.
“O meu pai teve a terceira classe, a minha mãe teve a quarta classe e, portanto, não tinham hábitos de leitura absolutamente nenhuns, de nada, nem de jornais, nem nada. Eles não liam, quem lia era eu”, realça, sorrindo.
Os clientes da experiência-piloto criada por Branquinho da Fonseca no concelho de Cascais não eram apenas estudantes, mas pessoas que se interessavam pela leitura, recorda.
Quando, em 1964, entrou para a universidade, José “diversificou mais” as leituras, como comprovam as folhas batidas à máquina de escrever, a tinta vermelha, com a síntese dos livros que lia.
Mostra-as à Lusa: “A retirada dos dez mil”, de Xenofonte, lido em outubro de 1965; “Decameron”, de Giovanni Boccaccio, em agosto de 1966; “D. Afonso Henriques”, de Mário Gonçalves Viana, em setembro de 1966; a biografia de Gengis Khan, em outubro de 1966.
“A partir do momento em que entrei na universidade, interessaram-me muito as grandes biografias, porque estava a estudar História”, explica.
Os dois funcionários que lhe traziam à porta de casa a biblioteca em forma de carrinha “já sabiam” que acabaria por levar “uma catrefada de livros, quatro, cinco ou seis”.
“Era tipo furgoneta e as paredes eram revestidas de estantes […]. Eu olhava e via, tinha mais ou menos a ideia do que é que gostava de ler e, portanto, pedia. Mas, muitas vezes, eles próprios me aconselhavam”, relata, qualificando: “Eram extraordinariamente amáveis”.
Lembra-se que assinava um papel a responsabilizar-se pela entrega dos livros na vez seguinte, mas, se por algum motivo, não tivesse conseguido ler, ficava de novo com os exemplares, até à vez seguinte.
José foi redator no jornal A nossa terra, publicação regional histórica de Cascais que, em cada número, dava indicação das horas a que a biblioteca itinerante estaria em determinado lugar.

“Foi exatamente a única hipótese que eu tive de ter os livros emprestados. Tínhamos livros emprestados normalmente durante um mês e eu aproveitava para fazer essas leituras todas. Não foi importante, foi importantíssimo”, vinca, prestes a chegar aos 82 anos.
Apesar de, naquela altura, não haver tantos estudantes universitários como hoje e de ser mais frequente optar por um curso comercial ou industrial a seguir ao secundário, José d’Encarnação foi para a universidade.
Não era muito politizado, mas participou nas crises académicas, escrevendo artigos em jornais como O encontro, da JUC (Juventude Universitária Católica).
“Algumas das crónicas acabavam por ser censuradas pela censura. Eu vendia esses jornais à entrada da faculdade e tinha sempre a certeza de que estava ao meu lado ou muito perto alguém, algum dos esbirros, a tentar ver como é que era, se havia algum comentário ou não em relação aos artigos que lá vinham”, rememora.
José acabaria por seguir o ramo da Arqueologia, com especialização em Epigrafia, o estudo das inscrições feitas em materiais como pedra, metal, cerâmica ou madeira, com o objetivo de decifrar, ler e entender mensagens do passado.
Quando a Universidade de Coimbra resolveu criar a cadeira de Epigrafia, José d’Encarnação era a pessoa que em Portugal mais tinha escrito sobre o tópico.
Era professor na Escola Salesiana do Estoril, quando lhe pediram que concorresse ao lugar: “Arranjei um quarto numa casa particular, ia na terça-feira e regressava na quinta-feira à noite ou na sexta-feira. Digo habitualmente que vivia em Cascais e trabalhava em Coimbra.”
José acabaria por fazer toda a carreira na Universidade de Coimbra, de assistente estagiário a professor catedrático.
Não chegou a conhecer Branquinho da Fonseca, de quem só ouviu falar a partir do momento em que o conservador e escritor foi trabalhar para a Fundação Calouste Gulbenkian, enquanto primeiro diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas.
“Espera, isto que este senhor fez em Cascais acabou por fazer, e muito bem, em todo o país?”, surpreendeu-se, na altura, ciente de ter beneficiado de uma “experiência inaugural”.
TEXTO:
Sofia Branco, da agência Lusa










































































