Em pleno ano de 2026, Portugal continua a realizar eleições com boletins em papel, uma prática que levanta sérias questões ambientais e tecnológicas.
Num país que se apresenta como comprometido com a transição digital e com a sustentabilidade, é difícil compreender como um processo tão recorrente e massivo como o ato eleitoral permanece dependente de toneladas de papel, tinta, transporte e logística pesada.
O impacto ambiental das eleições em papel é inegável. Milhões de boletins são impressos para cada ato eleitoral, muitos dos quais nunca chegam a ser utilizados e acabam destruídos. A isto somam-se os envelopes, editais, listas, manuais e todo o material de apoio, sem esquecer o transporte e o armazenamento, que aumentam a pegada carbónica do processo.
Num contexto de emergência climática, manter este modelo parece contradizer os compromissos ambientais assumidos pelo Estado português.
Para além da questão ecológica, a persistência do voto em papel revela um atraso tecnológico. Portugal é um dos países europeus com maior taxa de utilização de serviços digitais do Estado, como o Portal das Finanças, a Chave Móvel Digital ou o voto antecipado com inscrição online. Se os cidadãos já confiam ao sistema digital dados fiscais, clínicos e administrativos sensíveis, por que razão o voto continua a ser tratado como uma exceção intocável?
A votação eletrónica, se bem concebida, poderia trazer benefícios claros: redução significativa do consumo de papel, apuramento mais rápido e eficiente dos resultados, diminuição de erros humanos e maior acessibilidade para cidadãos com mobilidade reduzida ou residentes no estrangeiro.
Evidentemente, existem riscos associados à segurança e à transparência, mas esses riscos não devem servir de desculpa para a inação. Pelo contrário, devem ser um incentivo ao investimento em sistemas auditáveis, testados e acompanhados por entidades independentes.
Manter eleições em papel em 2026 não é apenas uma escolha conservadora; é uma oportunidade perdida para alinhar a democracia portuguesa com os desafios do século XXI. Proteger o ambiente e modernizar o processo eleitoral não são objetivos incompatíveis com a integridade democrática.
O verdadeiro risco está em continuar a adiar uma mudança necessária, em nome do conforto do hábito, quando o futuro já exige soluções mais responsáveis e sustentáveis.
TEXTO:
Manuela Ferreira
Ambientalista







































































