Portugal poderá falhar as metas climáticas definidas para 2030 caso não avance rapidamente com mudanças estruturais no setor dos transportes, alertou esta sexta-feira a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, após a divulgação dos dados oficiais das emissões nacionais de gases com efeito de estufa relativos a 2024.
Segundo o inventário divulgado pela Agência para o Clima, Portugal emitiu 51,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (MtCO₂e) em 2024, excluindo o setor florestal e de uso do solo. O valor representa uma redução de 3% face a 2023 e menos cerca de 40% em comparação com 2005.
A associação ambientalista reconhece que os resultados refletem progressos importantes, sobretudo devido ao crescimento da produção elétrica renovável, mas considera que a descida continua demasiado dependente de fatores conjunturais, como a maior disponibilidade hídrica e o aumento da produção solar.
“O atual ritmo de redução é insuficiente”, sustenta a ZERO, defendendo que Portugal ainda não consolidou uma trajetória estável e resiliente de descarbonização.
Transportes representam mais de um terço das emissões
O setor da energia continua a ser o principal responsável pelas emissões nacionais, concentrando 65,6% do total. Dentro deste grupo, os transportes mantêm-se como o maior foco de pressão climática, representando 35,2% das emissões nacionais.
A associação alerta que o consumo de combustíveis rodoviários voltou a aumentar em 2025, invertendo a estabilização observada em 2024. Segundo os dados citados, o consumo cresceu cerca de 0,9% este ano, sendo que no primeiro trimestre o aumento atingiu aproximadamente 2,5% face ao mesmo período do ano anterior.
Para a ZERO, esta tendência demonstra “a ausência de medidas estruturais eficazes” para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis na mobilidade, criticando a falta de políticas públicas robustas por parte do Governo e da Assembleia da República.
Além do impacto climático, a organização lembra que o setor dos transportes continua a ser um dos principais responsáveis pela emissão de poluentes atmosféricos, como os óxidos de azoto, com consequências diretas para a saúde pública.
Meta exige cortes anuais mais acelerados
De acordo com a associação, para cumprir o objetivo do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) — reduzir as emissões em 55% até 2030 face a 2005 — Portugal terá de baixar as emissões para cerca de 38,7 MtCO₂e até ao final da década.
Isso implica um corte adicional de 12,8 MtCO₂e em apenas seis anos, correspondente a uma redução média anual próxima de 4,7%, um ritmo significativamente superior ao registado na última década.
Perante este cenário, a ZERO defende medidas urgentes, incluindo a aceleração da eletrificação dos veículos; reforço do investimento no transporte público e na ferrovia; criação de soluções de mobilidade partilhada e consignação de receitas dos impostos rodoviários para políticas de mobilidade sustentável.
A associação pede ainda o cumprimento integral da Lei de Bases do Clima, incluindo a operacionalização do Conselho de Ação Climática e a integração efetiva da chamada “orçamentação verde”.
Agricultura, resíduos e floresta continuam desafios
O inventário revela também que a agricultura representa 13,5% das emissões nacionais, enquanto o setor dos resíduos mantém um peso de cerca de 11%.
Já o setor florestal continua marcado por forte instabilidade, alternando entre sumidouro e fonte de emissões, sobretudo devido à ocorrência de incêndios extremos, como os registados em 2017.
A ZERO considera que esta vulnerabilidade reforça a necessidade de uma política florestal mais integrada e adaptada às alterações climáticas.
Apesar de reconhecer que Portugal conseguiu reduzir emissões sem comprometer o crescimento económico, a associação conclui que “esta década será decisiva” para garantir o cumprimento dos compromissos climáticos nacionais e europeus.




































































