A ideia pode parecer saída de uma conversa de café ou de uma rede social particularmente inspirada, mas vale a pena explorá-la: e se Cristiano Ronaldo fosse Presidente da República em Portugal? Num país onde o futebol é quase uma segunda língua e onde CR7 se tornou, talvez, o português mais reconhecido no mundo, não é absurdo imaginar como seria o impacto de uma figura assim na vida política nacional.
Para começar, Ronaldo representa uma coisa que falta com frequência à política: disciplina extrema. O país acordaria cedo — não por decreto, mas por vergonha. O Presidente correria 10 quilómetros antes das 7h00, e o “exemplo presidencial” tornar-se-ia instantaneamente tema de debate no Parlamento. Haveria, possivelmente, mais ginásios do que pastelarias; um choque civilizacional.
No plano diplomático, Portugal ganharia súbita visibilidade global. Chefes de Estado fariam fila para a selfie oficial no Palácio de Belém. A ONU veria as suas audiências televisivas disparar quando o Presidente português subisse ao púlpito. A política externa transformar-se-ia, inevitavelmente, numa espécie de Champions League diplomática — e Portugal, com Ronaldo, jogaria sempre na primeira divisão.
Mas a política não vive apenas de brilho. Um Presidente com estatuto de ícone mundial enfrentaria desafios evidentes. A distância entre popularidade e competência política é real, e as expectativas — sempre gigantescas — poderiam transformar qualquer divergência com o Governo numa novela nacional. Além disso, a tentação para alguns seria reduzir a Presidência a espetáculo, como se o país tivesse escolhido uma celebridade e não um magistrado da nação. A verdade é que a democracia precisa de estabilidade, ponderação e, por vezes, de anonimato — tudo qualidades pouco associadas a alguém habituado a estádios cheios e câmaras apontadas.
Ainda assim, subestimar Ronaldo seria um erro. A sua carreira é, precisamente, uma lição contínua de reinvenção, foco e superação. Mais do que habilidade técnica, ele construiu um império baseado em trabalho, resiliência e uma ambição quase teimosa. É legítimo perguntar se estas características não fariam dele um Presidente atento, exigente e, quem sabe, até inovador.
No fim, talvez a verdadeira provocação seja outra: porque é que nos parece mais fácil imaginar Ronaldo como Presidente do que imaginar a política como um espaço onde a excelência, o rigor e a meritocracia são regra? Talvez a fantasia revele, mais do que sobre Ronaldo, algo sobre nós — sobre a nossa necessidade de acreditar em figuras capazes de unir o país num grito coletivo.
E, convenhamos, poucos portugueses conseguem isso como ele.
TEXTO:
António Carriço






































































